Mora no exterior? Por que você não deve usar sua conta como casa de câmbio

Mora no exterior? Por que você não deve usar sua conta como casa de câmbio

Você mora no exterior e tem dinheiro em uma conta no Brasil. Um amigo precisa de reais e você precisa de euros ou dólares.

Então surge aquela ideia:

“Você me transfere o dinheiro aqui e eu faço um Pix para você no Brasil. Assim, a gente economiza nas taxas de câmbio.”

Parece uma solução simples. Mas esse tipo de operação pode trazer problemas.

Ela é conhecida como dólar cabo ou euro cabo e consiste, basicamente, em uma compensação de valores entre pessoas que estão em países diferentes.


Imagine que você esteja em Portugal e precise mandar €1.000 para sua mãe no Brasil.

Um amigo seu também está em Portugal e precisa mandar dinheiro para alguém no Brasil. Em vez de cada um fazer sua própria operação de câmbio, vocês combinam uma compensação:

ele entrega os euros para você em Portugal e você faz um Pix equivalente em reais para ele ou para outra pessoa no Brasil.

Na prática, o dinheiro não percorre o caminho normal de uma transferência internacional. Uma pessoa entrega uma moeda em um país e recebe outra moeda em outro país.

E é justamente essa característica que torna a operação problemática.


Esse é um dos motivos pelos quais muitas pessoas acabam fazendo esse tipo de operação sem perceber o risco.

Não parece uma operação financeira.

Parece apenas uma ajuda.

Mas existe uma diferença importante entre ajudar alguém a fazer uma transferência e compensar valores entre diferentes moedas e países por fora dos canais formais.

Não existe uma regra de que, abaixo de determinado valor, esse tipo de operação passa a ser permitido.

Ou seja: não pense que “foi só €200” ou “foi só €500” e, por isso, não existe risco.

A questão está na natureza da operação e na possibilidade de comprovar corretamente a origem e a movimentação dos recursos.


As operações de câmbio e as transferências internacionais passam por instituições financeiras justamente para que exista um registro da movimentação e seja possível identificar a origem dos recursos.

Quando você transfere o seu próprio dinheiro do exterior para o Brasil por meio de um banco ou de uma casa de câmbio, existe uma operação formal e documentação.

Agora imagine que, em vez disso, você receba dinheiro de uma pessoa no exterior e faça um Pix para ela ou para um terceiro no Brasil.

Se alguém perguntar posteriormente:

“De onde veio esse dinheiro?”

Você precisa conseguir explicar.

E, principalmente, precisa conseguir comprovar.

Dependendo da situação, operações dessa natureza podem estar relacionadas a crimes como evasão de divisas e, quando houver recursos de origem ilícita, também podem envolver lavagem de dinheiro.

Por isso, não vale a pena tratar esse tipo de operação como uma simples maneira de economizar no câmbio.


Pode.

E essa é uma diferença muito importante.

Se você mora no exterior, fez sua saída fiscal e tem patrimônio fora do Brasil, você pode decidir trazer parte desse dinheiro para o país.

Imagine, por exemplo, que você queira enviar R$ 500 mil para o Brasil para comprar um imóvel.

O problema não é trazer o seu próprio dinheiro.

O cuidado está em como esse dinheiro chega ao Brasil.

O caminho é fazer a transferência pelos meios formais, utilizando banco ou casa de câmbio, e manter a documentação que comprove a origem dos recursos.


Essa também pode ser uma situação comum.

Algumas pessoas enfrentam dificuldades para abrir uma conta de não residente, seja pelas exigências do banco, seja pelo país onde vivem ou pela documentação solicitada.

Se isso acontecer, pode ser necessário continuar utilizando a conta que já existe no Brasil.

O importante é entender que mandar o seu próprio dinheiro para uma conta no Brasil não é a mesma coisa que usar essa conta para fazer compensações com outras pessoas.

Uma coisa é transferir o seu patrimônio.

Outra é transformar sua conta em uma espécie de intermediária entre pessoas que estão no Brasil e no exterior.


Existe ainda outro ponto importante.

Depois de fazer a saída fiscal, não basta simplesmente continuar utilizando a estrutura financeira brasileira exatamente como você fazia quando era residente.

Se você mantém uma conta comum porque ainda não conseguiu abrir uma conta de não residente, isso não significa que deve continuar realizando investimentos e movimentações como se ainda fosse residente fiscal.

A condição de não residente precisa ser respeitada também na forma como você organiza sua vida financeira no Brasil.


Mariana mora em Portugal e fez sua saída fiscal do Brasil.

Ela precisa de R$ 20 mil no Brasil para pagar parte da compra de um imóvel.

Um amigo que mora em Portugal diz:

“Você me entrega €3.500 aqui e eu faço um Pix de R$ 20 mil para você no Brasil.”

Mariana pode pensar:

“Ótimo. Assim eu economizo o câmbio.”

Mas perceba o que aconteceu.

Mariana não está simplesmente transferindo o próprio dinheiro para o Brasil.

Ela está entregando uma moeda no exterior e recebendo outra moeda por meio de uma movimentação no Brasil.

Essa é justamente a lógica do chamado euro cabo.

Se Mariana precisa trazer o próprio patrimônio para o Brasil, o mais adequado é realizar uma transferência formal dos próprios recursos, pelos canais apropriados, mantendo os documentos que comprovem a origem do dinheiro.


Morar fora do Brasil não significa que você não possa ter dinheiro, patrimônio ou investimentos no país.

Você pode enviar seus próprios recursos para o Brasil, inclusive para comprar um imóvel ou investir.

O cuidado está em não utilizar sua conta pessoal para fazer compensações financeiras entre pessoas, especialmente entre moedas e países diferentes.

A economia com o câmbio pode parecer interessante naquele momento.

Mas é importante pensar no que acontece depois.


Se alguém perguntar de onde veio aquele dinheiro e por que ele passou pela sua conta, você consegue explicar e comprovar a operação?

Se a resposta for não, talvez seja melhor não fazer.

Para quem mora no exterior, organizar corretamente as movimentações entre Brasil e outros países faz parte do planejamento financeiro e fiscal.

Se você mora no exterior, fez ou está pensando em fazer a saída fiscal e tem dúvidas sobre conta de não residente, investimentos ou movimentação do seu patrimônio entre Brasil e exterior, vale analisar a sua situação antes de tomar decisões.

A Contadora do Imigrante pode te ajudar a entender o que faz sentido para o seu caso e como organizar sua vida fiscal enquanto você mora fora do Brasil.

Agende sua consultoria e tire suas dúvidas.

Este conteúdo foi inspirado neste vídeo



Conteúdo produzido pela Contadora do Imigrante.